Quando, hoje em dia, se fala tanto de educação sexual, de liberdade, etc., existem comportamentos que me ficam registados no cérebro e me fazem pensar que ainda temos tanto que aprender.
Desengane-se quem pensa que os adolescentes assumem o sexo, como se tratasse de um cheeseburguer, com batatas e molho picante.
Quando me aproximei do corredor dos pensos rápidos, vi um casal aos cochichos, com um ar muito indeciso. Não deviam ter mais de 20 anos; ele um imberbe, e ela com a pele luzidia de acne juvenil. À medida que me fui aproximando, vi o olhar de pânico da miúda; rapidamente larga uma caixa e tenta disfarçar, indo para o corredor dos champôs. Ele, parece assobiar para o lado, e ainda pega numa outra caixa. Pareceu-me indeciso, embora eu não soubesse exactamente com o quê. Já mais perto dele, verifiquei que procurava preservativos. Acabou por deixar a caixa largada à toa, fez-se desinteressado, apesar do rubor lhe ter somado no rosto. Procurou a namorada/companheira/ou sei-lá-o-que-seria, e esperaram que eu lá me decidisse pelos pensos rápidos. Confesso que me demorei mais que o necessário… Sorri, pelo caricato da situação. Não quis deixá-los entabulados mas, percebia-se o nervosismo.
Quando passei para o corredor em frente, pude verificar que ela o acotovelava para que fosse rapidamente buscar a caixa, para evitar mais um intruso no corredor. Ele ainda olhou para todos os lados, para verificar que não daria nas vistas. Ela escondia as mãos nas mangas da camisola, para esconder a pressa que tinha em sair dali. Ele lá pegou na caixa. Não me perguntem a marca, que eu não sei, nem tomei atenção… e seguiram para a caixa, de mãos dadas, como se assumissem a meias uma culpa, que só eles pareciam ver.
No fim, quando já os vi ao fundo do corredor, sorri para mim, e pensei que, mais que a culpa que sentiam, deviam sentir que estavam a fazer o correcto. Prevenir-se. Porque há quem, com a vergonha, se iniba de se proteger. E as consequências serão bem mais nefastas, do que o rubor da cara.
Podemos achar que somos todos muito liberais, que não temos tabus quanto ao sexo e a ele relacionado, mas afinal é tudo treta. Não são raros os casos de homens com mais de cinquenta anos, que fogem dos exames à próstata com vergonha que a sua masculinidade seja posta em causa. E quando por fim, lhes cai a vergonha aos pés, vêem-se com um grave problema nos braços, o da doença.
Temos todos muito que aprender, e por muito que o nosso pudor nos deixe mal, nada melhor que prevenir.
Afinal, o sexo ainda é tabu… mesmo que os portugueses digam que não, a cabeça acena que sim!


8 comentários:
È sim mas também acho que vem muito do passado em que sempre foi visto como algo a esconder. Toda a gente o faz, mas esconde que o faz. Vá se lá entender porquê... afinal de onde nascemos nós? Não será evidente?bjs
é por isso que as palavras só têm valor quando os gestos as confirmam...
Sorte tua em apreciares esta cena: há cerca de um ano apreciei numa farmácia um casal constituído por um moço imberbe e uma moça muito nova a perguntar à farmacêutica se a moça podia tomar segunda vez a pílula do dia seguinte. Isto porque para a pílula normal ter efeito tinham que esperar até ao fim da caixa.
A farmacêutica lá disse que não convinha mesmo nada, porque basicamente a pílula do dia seguinte era uma dose absolutamente cavalar de hormonas e não era para tomar tipo chiclets.
Isto enquanto se apalpava e abraçavam e riam. Mais valia segurarem um cartaz a dizer "nós os dois fazemos sexo, estão a ver?". Seria ao menos mais discreto.
Digo eu que aquilo vai acabar mal, mas não tenho filhos daquela idade. E tentarei que filhos que venha a ter não sejam assim.
Concordo contigo!
Eu falo à vontade sobre o assunto e fico chocada quando alguém fica chocado sobre isso! Não é algo natural? Porque não falar, qual o mal de comprar preservativos, não entendo, mas claro nem todos somos iguais!
A mente do português ainda é perversa mas timida! Lol!
Beijocas
Olá pepita!
O que dizes é bem verdade, mas no entanto, existem outros tabus, ainda mais hipócritas e estúpidos que esses.
Por exemplo, a utilização de preservativos, está grandemente penalizada pela opinião geral que é passada para todos, e principalmente para os jovens, de que quem gosta de sexo a sério não usa "camisas-de-vénus", "...eu cá não como rebuçados com o plástico...", diz-se abundantemente... Para quem não sabe, já não estamos no tempo das "cartas de paris" feitas com o intestino de borrego. Hoje, os preservativos de qualidade, têm espessuras de centésimas de milímetro aliadas a resistências extraordinárias. Para além disso, existe o mega lóbi dos anticoncepcionais de via oral, que constituem em si uma enorme vergonha, dada a promiscuidade entre a indústria e a classe medica, que vigorosamente desconsidera a utilização de preservativos, mas que põe miúdas de 12 anos a fazer anticoncepcionais de via oral, para prevenir o acne... Não rendesse o negócio tanto a ambos, e veríamos as preocupações do acne...
Mas tens muita razão. E no exemplo de pessoal da próstata então, nem se fala. Toque rectal, é coisa que macho a sério não admite! Depois, são sujeitos a prostatectomias totais, radicais (implicando a disfunção eréctil definitiva), quando já não é tarde demais e... aquilo mata que se farta...
Enfim... Mentalidades, e não só...
Um beijo
O sexo continua a ser tabu e, sinceramente, acho que haverá sempre gente a considerá-lo um tabu! Não sei qual o problema de falar abertamente sobre esse assunto... Além de instruir melhor muitas pessoas, não é nada fora do normal, é o que um macho e uma fêmea fazem para acasalar... Enfim, estas mentes!!!
Belos tempos esses em que a vergonha de ir comprar preservativos se estampava na cara para quem quisesse ver... hoje em dia, segue no tapete, no meio dos iogurtes ou das alfaces!.. :)
Eu acho que apesar de pensarmos na libertinagem que existe actualmente, casos como o que tu observaste são muito comuns.
Lembro-me da vergonha que tive e de todo o nervoso que me deu por ter que ir à farmácia comprar a pílula do dia seguinte, por exemplo. Nem foi bem pelo acto em si, ou por ter que dizer o que queria à farmaceutica, foi pelos olhares das outras pessoas que lá estavam a olhar de lado com reprovação.
Quanto a preservativos e outros produtos semelhantes, nisso nunca me deu para ter grande vergonha mas já comprei para amigas minhas que, lá está, por vergonha, nem se chegavam à prateleira e ia eu na vez delas mexer nos preservativos e nos lubrificantes e nos toalhetes e blablabla...(e a fazer comentários aos mesmos, o que as punha ainda mais coradas :D).
Mas sim, existe ainda muita limitação nesta área, muita vergonha por até estar a ter um comportamento correcto mas se envolve'sexo' ainda há uma muito desconforto ligado ao tema...
No entanto, o 'contrário' também me assusta. Lembro-me de entrar na universidade e ficar meia parva a olhar para o saco de plástico que nos davam com papeis, canetas e tralhas da 'recepção ao caloiro' e uns quatro ou cinco preservativos zigzag lá no meio... De certa forma, até se compreende a acção mas, ao mesmo tempo parece-me meio desapropriado...É como nas queimas, atirarem preservativos como se tivessem a atirar rebuçados, faz-me confusão, de tão 'banal' e de tão 'sem sentido' que tornam as coisas por vezes...
beijinho
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